Equipamento deixou de ser usado na década de 1970. Uma reforma chegou a ser iniciada, mas a obra nunca foi concluída
Guilherme Gonçalves
Barras de ferro sustentam estrutura para monumento não cair.
Renan Mattos / Agencia RBS
Quem tem casa na praia sabe: se não fizer manutenção, a maresia corrói tudo. Não seria diferente com os mobiliários públicos. No movimentado calçadão da Praia Grande, em Torres, há um monumento que chama atenção pela arquitetura retrofuturista, mas que sofreu com a ação do tempo e agora está com aspecto de abandono.
Chamado de "Torreão", esta imponente construção foi o primeiro abrigo para guarda-vidas construído na cidade. A ideia surgiu na década de 1950. Na época, a faixa de areia era muito mais baixa do que hoje, o que explica o tamanho da estrutura.
Construído com aço e concreto armado, o Torreão perdeu sua função em meados da década de 1970, quando novos abrigos de guarda-vidas começaram a ser instalados mais perto do mar e em estruturas de madeira, mais resistentes no ambiente praiano.
Desde então, o Torreão virou monumento e ganhou nova função: a de preservar sua memória. O historiador e jornalista Nelson Adams lembra que a obra foi bancada pela prefeitura em parceria com a Associação dos Amigos da Praia de Torres (Sapt).
— Sua construção remete a um período pós-guerra, em que as construções em Torres passaram a ter um viés americano. Outros edifícios e casas seguiram esta tendência arquitetônica. O prédio da Sapt, por exemplo, obedece este viés, sendo sua planta inspirada em prédios de Los Angeles — conta Adams.
Contudo, veranistas e a população torrense lamentam a atual situação do monumento, que está com o concreto que lhe sustenta há 73 anos caindo pela calçada.
Torreão no final da década de 1950, antes mesmo de o calçadão da Praia Grande ser construído.
Arquivo da prefeitura de Torres / Divulgação
Descaso
O monumento, que homenageia os guarda-vidas, consta no inventário de propriedades com relevância elaborado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (Comphac) de Torres.
—Ver uma das obras icônicas de Torres neste estado é lamentável, um descaso com a história — acredita Adams, que presidiu o Comphac até 2022.
Há quatro anos, a prefeitura chegou a anunciar a revitalização do Torreão. Quem bancaria esta obra seria a empresa Dimak Construções e Incorporadora através de contrapartida por um empreendimento erguido na cidade.
A estrutura chegou a ser cercada e foram realizados o escoramento e um escaneamento para avaliar as condições da ferragem e outros elementos que compõem a construção. Barras de ferro foram colocadas na estrutura para o monumento não cair.
Contudo, o Ministério Público questionou o modelo de contratação e a obra foi paralisada.
A prefeitura de Torres informou que uma nova licitação para reformar o monumento terá que ser feita, mas ainda não há prazo para ocorrer.
— Contratamos um estudo que nos deu um orçamento de R$ 500 mil para reformar o Torreão. Porém, estava incompleto e não garantia que, com esse valor, que é alto, a obra seria entregue da melhor forma — diz o secretário de Turismo de Torres, Gabriel de Mello.
Impacto no entorno
A estrutura traz problemas para veranistas e moradores. O proprietário de um restaurante ao lado do Torreão conta que partes da estrutura de concreto caíram em seu negócio — mais de uma vez.
Para não levar riscos à clientela, ele optou por interditar parte do restaurante e diminuir a capacidade para clientes — um espaço que faz falta durante a alta temporada.
— Eu não entendo. A obra começou, parou e nunca mais nada foi feito — lamenta o empresário Evanir Pacheco Schardosin, proprietário do restaurante Schatel, inaugurado há 34 anos ao lado do Torreão.
— Os ferros que sustentam as escadas estão expostos há quatro anos. Imagina isso na maresia. Só espero que não caia em cima de nós — completa Schardosin.
Empresário teme que monumento caia em cima de seu negócio. Renan Mattos / Agencia RBS
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